
No cenário cultural chileno a tradição e a inovação constantemente conversam. Há dois teatros que se destacaram recentemente por explorar um campo ainda pouco convencional: aceitar criptomoedas como forma de pagamento. Sim. Esses teatros são o Teatro CorpArtes, localizado no moderno bairro de Las Condes, em Santiago, e o histórico Teatro Municipal de Santiago.
Teatro Municipal de Santiago
Em abril de 2018, o Teatro Municipal de Santiago protagonizou um feito pioneiro ao vender ingressos para um concerto especial da banda chilena Electrodomésticos utilizando Bitcoin. Uma quantidade limitada de bilhetes foi oferecida exclusivamente através de pagamento em criptomoeda via QR-code.
O mecanismo era simples e direto, os espectadores escaneavam o código com sua carteira digital, realizavam o pagamento e recebiam o ingresso digital imediatamente. Para os aficcionados da tecnologia e defensores das criptos, foi um momento emblemático, marcando uma possível abertura das instituições culturais tradicionais ao novo paradigma.
Mas apesar do sucesso pontual, o Teatro Municipal não prosseguiu com a iniciativa. A bilheteria retornou à sua operação tradicional, exclusivamente com pesos chilenos e meios tradicionais como cartões e dinheiro físico. O experimento evidenciou uma clara intenção inovadora, mas também revelou entraves consideráveis para a continuidade dessa política. Infelizmente.
Os aficcionados por cripto então ainda precisam recorrer à Binance (muito usada no Chile), onde a criação de conta Binance é mais fácil do que em lugares mais burocráticos como a Europa.
Teatro CorpArtes
Já o Teatro CorpArtes, conhecido pela sua arquitetura contemporânea e por sediar eventos culturais diversificados, realizou uma experiência mais recente, em março de 2024, durante o evento CriptoSummit 2024. Neste caso, foi a organização do evento, e não o teatro em si, que ofereceu aos participantes a opção de pagamento com criptomoedas, integrando diversas moedas digitais através de plataformas próprias.
Embora tenha sido uma iniciativa pontual, revelou como eventos privados hospedados por teatros podem servir como porta de entrada para testar o modelo de pagamentos em criptomoedas sem expor diretamente a instituição aos riscos e desafios associados ao seu uso regular.
Principais Barreiras para a Adoção em Massa
Por que então, mesmo diante de experimentos aparentemente bem-sucedidos, as criptomoedas ainda não são amplamente aceitas pelos teatros no Chile? As respostas são múltiplas e complexas, abrangendo desde questões operacionais até financeiras e regulatórias.
Primeio há o problema da volatilidade das criptomoedas. Teatros e instituições culturais têm orçamentos apertados e previsões financeiras rígidas. A oscilação extrema nos preços das criptomoedas poderia gerar grandes dificuldades financeiras e problemas de contabilidade. Para uma entidade pública ou fundação, a transparência financeira é crítica, e a contabilidade dessas moedas digitais ainda representa um desafio significativo.
Outro obstáculo importante é a infraestrutura técnica necessária. Implementar pagamentos em criptomoedas envolve custos adicionais com gateways e processamento, além de treinamento específico para funcionários da bilheteria e da administração financeira do teatro. Processadores de criptomoedas como BitPay cobram taxas e oferecem interfaces muitas vezes vistas como complexas ou pouco práticas para o administrador do teatro.
E questões legais e regulatórias também pesam. No Chile, a Lei Fintech (Lei 21.521), em vigor desde 2024, esclarece que criptomoedas não são consideradas moeda legal. Isso implica em tratamento tributário complexo e maior rigor contábil, dificultando ainda mais a adoção generalizada nas bilheterias dos teatros.
Teatro Nescafé de las Artes
Outro espaço cultural relevante em Santiago, o Teatro Nescafé de las Artes, reconhecido pela programação variada e contemporânea, ainda não demonstrou interesse explícito em pagamentos com criptomoedas. Apesar disso, considerando o perfil moderno e experimental do teatro, há potencial para futuras iniciativas. Contudo, atualmente a instituição permanece focada nas formas tradicionais de pagamento.
Um Futuro Possível?
Apesar das barreiras evidentes, o uso de criptomoedas na cultura chilena ainda representa uma oportunidade intrigante. Para teatros, o caminho pode estar em parcerias estratégicas com eventos privados ou empresas fintech, proporcionando experiências pontuais sem exposição direta aos riscos.
Mas administradores de teatros precisam ficar cientes de que chilenos também gostam de investir em coisas ousadas como opções binárias na IQ Option e ativos parecidos. A pergunta que fica é: se existe demanda para ativos digitais das mais diversas naturezas, não haveria público extra para os teatros se estes adotassem essas novas tendências?
Outro caminho viável são as plataformas intermediárias, como as que oferecem gift-cards de ingressos que podem ser comprados com criptomoedas. Essa opção permite que o público interessado utilize criptomoedas, enquanto o teatro recebe os valores em pesos chilenos, sem riscos de volatilidade.
Em resumo
A incursão dos teatros chilenos no mundo das criptomoedas ainda está em seus primeiros passos, caracterizada por experimentos pontuais que destacam tanto as possibilidades quanto os desafios dessa empreitada. O Teatro Municipal de Santiago e o Teatro CorpArtes já mostraram que há público interessado e uma viabilidade técnica inicial, mas as barreiras financeiras, operacionais e legais precisam ser superadas para que essa tendência se consolide como parte regular das transações culturais no Chile.
Os próximos anos vão mostrar se esses experimentos foram apenas momentos isolados ou se representam o início de uma transformação mais profunda no relacionamento entre cultura e tecnologia financeira no Chile.